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terça-feira, 14 de abril de 2009

GRAU ZERO



Até hoje não sei se o que aconteceu comigo foi sonho ou realidade. Às vezes penso que devo ter perdido temporariamente a razão, que delirei e tive febre. Parece-me que passei por um período de insônias, delírios, suores frios, pés gelados, a cabeça doendo. Encontrei depois pelas gavetas algumas caixas de psicotrópicos, de dosagem elevada. No entanto, o meu médico afirmava que nunca estive tão normal quanto nesta época, pelo menos aparentemente. De modo que continuo sem saber o que pensar desses estranhos acontecimentos.


Tudo começou porque eu estava desempregado e tinha como hábito ir para a praça central da cidade. Todas as tardes ficava lá, absorto nos pensamentos mais desconexos, devaneando, enquanto a multidão fluía. Era um espetáculo ao qual eu não prestava muita atenção, mas que, inexplicavelmente, me distraía das idéias atrozes que me atormentavam. Eu me deixava ficar na praça até o sol se pôr, e às vezes só pelas oito, oito e meia da noite, é que voltava para casa. Neste trajeto eu gastava talvez uns quarenta minutos, que fazia sem pressa, porque morava só, num quarto pequeno, e sabia bastante bem que a noite seria muito longa. Geralmente eu lia até de madrugada, ou ficava assistindo televisão.


Assim corria a minha vida, sem grandes sobressaltos. Na parte da manhã, olhava os jornais, procurando emprego, ou então ia apresentar o meu currículo em firmas que estivessem possivelmente oferecendo vagas. Mas na maioria das ocasiões ficava em casa, lendo e fumando, quando o dinheiro dava para o cigarro.


Numa tarde — fazia três meses que eu estava sem trabalhar e o meu desânimo aumentava — cheguei à praça mais deprimido que de costume. Sentei-me num banco central, de onde podia contemplar a grande fonte, guarnecida de ninfas e dragões de pedra, e no centro da qual fica a coluna da hora. Estava concentrado em olhar para o jorro d’água, quando vi, do lado oposto, atravessando a rua, uma mulher de vestido preto. Imediatamente, alguma coisa nela me chamou a atenção — o modo de andar, os cabelos castanhos, o rosto singularmente expressivo, o quê, não tenho certeza. Mas — e foi isso que verdadeiramente me fascinou logo num segundo momento — havia no seu olhar um sentimento triste, como de uma nostalgia infinita, de quem se achasse perdida e não tivesse esperança de nunca mais ser encontrada. E esse olhar parecia que me chamava para si, embora, pelo que pude notar, ela sequer houvesse dado pela minha presença.
Me levantar e segui-la foi uma ação automática, que executei em estado de semi-inconsciência. Eu tinha a impressão de que acabava de me acontecer o fato mais importante de toda a minha existência; e sentia uma angústia intensa, esquisitamente misturada com uma alegria tal como eu nunca havia sentido.


A mulher caminhava rapidamente, e eu só avistava as suas costas, os reflexos dourados dos cabelos. O que eu mais queria no mundo era que ela olhasse para trás, pelo menos de relance, mas isto não acontecia. Apressei os passos, na esperança de alcançá-la, barroando nos transeuntes, e efetivamente me aproximei bastante, até a distância de um braço. Mas então, quando podia tocá-la, deixei-me ficar estupidamente parado, como se uma força invisível me acorrentasse ao solo. E com lágrimas nos olhos a vi desaparecer, irremediavelmente desaparecer.
Depois disto, em que estado de ânimo passei as 24 horas seguintes! Algo me dizia que a viria novamente no dia seguinte, no mesmo local e no mesmo horário. Imaginem então a noite que passei, rolando na cama, e as vezes que consultei o relógio, tentando inutilmente apressar o tempo, que, pelo contrário, se arrastava com uma lentidão de lesma. Quando o sol apareceu, não consegui me conter, e, trocando de roupa, me encaminhei para a praça, sofregamente, sem sequer me preocupar em quebrar o jejum. E durante toda esta manhã, que durou séculos, caminhei centenas de vezes, talvez milhares, em torno da praça e pelas ruas adjacentes.
Veio a tarde, e a mulher não apareceu. Desesperado, eu rilhava os dentes, mordia as unhas, e as horas passavam indiferentes, como ondas regulares de um mar tenebroso, mar de piche, lodo e lama no qual eu afundava. Às 11 da noite, perdendo definitivamente as esperanças de um encontro improvável, e após ter esquadrinhado os recantos da praça pela milésima vez, retornei para casa, trôpego e faminto. Lembro-me que soluçava, ao me aproximar do quartinho. E quando fechei a porta, louco de dor, rolei pelo chão, balbuciando obscenidades, pragas e maldições. Chorei então até desmaiar, já de madrugada, exausto de cansaço e de fome, pois nada havia comido durante todo o dia.


E assim transcorreram três dias, em que vivi como um sonâmbulo, o mundo ao redor transformado em uma massa de névoa, espessa e sem sentido. Em várias ocasiões, ao deixar a praça, onde passava agora todo o tempo, me dirigia ao porto; de cima do cais ficava vendo o mar, lá embaixo, brigando com os rochedos pontiagudos. Eu segurava no corrimão de ferro, que contorna os trapiches, e o vaivém das águas me hipnotizava, como se fosse um chamado, uma cantilena monótona e maviosa que me puxasse para dentro do abismo. E entre as espumas, trêmula, eu tinha a ilusão de avistar, submersa, a imagem mais que todas querida.
Ao cabo de três dias, a mulher apareceu novamente. Trajava um vestido azul claro, de alças, mostrando os ombros de puro mármore. Desta feita, ela me olhou por um instante, com seus olhos de mares longínquos, e houve neste relâmpago como que uma mensagem de reconhecimento, como se fôssemos companheiros de uma mesma jornada começada há muito tempo atrás, companheiros que conviveram por longos anos, e que um acaso ou um infortúnio houvesse separado. A sua boca se entreabria, para saudar o reencontro, mas foi outra coisa que ouvi, com nitidez, apesar de trinta metros mediarem entre nós dois:
— Não se aproxime de mim, será a sua perdição.
Estupefato com o que acabava de escutar, deixei-me ficar, atônito, enquanto ela desaparecia de novo no turbilhão incessante. E a partir desta data, infalivelmente, todos os dias eu conseguia vê-la, embora de modo rápido. Embora fossem baldadas todos as maneiras que imaginei para acompanhá-la, falar com ela, beijar-lhe as mãos e os olhos, ajoelhar-me aos seus pés e lhe oferecer o punhal com que ela me trespassaria o peito.
Durante esta fase — que se estendeu por 21 dias precisamente — forjei toda espécie de truques para obter seu endereço. Em meus delírios, elaborei os estratagemas mais complexos e absurdos; e em minha mente se sucediam, alternadamente e numa velocidade estonteante, a exaltação e o desânimo, a certeza mais absoluta e o desengano mais amargo. De sua visão fugaz, que sumia como um fantasma, era que eu me alimentava, e onde ia buscar forças para continuar, paradoxalmente, vivo. E somente desta fantasia feroz e febril eu tirava o meu sustento.
Passaram-se três semanas, e eu a via diariamente, mas se fosse feita a soma dos minutos, creio que estes não chegariam a dez. Dez? Talvez cinco. De qualquer forma, esta situação era menos pior do que a que veio a seguir: ela sumiu para não mais voltar.


Desde então, muitos anos se passaram. Consegui um lugar no funcionalismo público, que me garante a sobrevivência. Casei, tenho dois filhos. Minha mulher não é mais nem menos — uma pessoa mediana, normal como tantas outras. Não vou contar dos primeiros meses que se seguiram ao desaparecimento daquela que foi a luz da minha vida. Evitava passar pela praça central, pelas ruas que pudessem recordar de algum modo a sua lembrança. E tudo transcorria assim, em cores cinzas, nem menos nem mais, os anos se sucedendo em sua cantiga repetida. Até que, há uma semana, o telefone toca, sempre à mesma hora, e, quando eu atendo, um longo silêncio se segue, pontuado por uma respiração quase inaudível. E eu também nada digo, deixo-me ficar mudo, porque sei muito bem o que me espera do outro lado. As palavras que não digo, e também as que não ouço, ressoam, claras e inequívocas, na minha cabeça. Alguém, de muito longe, chama por mim.


E sei o que inevitavelmente virá: suores, delírios, insônia, pés gelados. O meu médico continua afirmando que não tenho doença alguma, e que aliás nunca tive. Sei também para onde os meus passos me arrastam, contra a vontade: para o porto, para o mar, para os recifes pontiagudos, porque entre as espumas e as ondas ela me espera, e com ela deverei, mais cedo ou mais tarde, finalmente me encontrar.
(Conto de Dimas Carvalho)

MANUSCRITO





Epaminondas Pitágoras da Cunha trabalhava numa livraria decrépita, um prédio velho de dois andares, situado numa ruazinha decadente do centro da cidade. Era o único empregado, além de dono, seu Eleutério, muito idoso, surdo, reumático, quase cego. De modo que Epaminondas se via quase que como proprietário absoluto daqueles milhares de livros velhos e empoeirados, perfilados em estantes antigas, e aos quais praticamente ninguém procurava. Porque os clientes, como era de se esperar de tal estabelecimento, eram raros, e também eles antigos, decrépitos e decadentes.


Os dias se passavam numa monotonia de rio amazônico… Epaminondas, entediado, dava grandes bocejos enquanto folheava páginas esquecidas. Seu Eleutério cochilava na espreguiçadeira, por trás do balcão, o jornal caído entre as pernas, a boca aberta, babando.


Além dos dois andares, o prédio possuía um pequeno sótão, onde Epaminondas subia, quando estava mais disposto, para fazer a limpeza. Numa dessas vezes, notou que, num canto, havia uma pilha de livros, coisa que nunca antes observara. Aproximou-se e começou a verificar os títulos, manuseando com todo o cuidado as folhas amareladas. A poeira fazia com que espirasse. Alguns livros estavam roídos pelas traças, outros eram quase ilegíveis. Mas o que chamou mesmo a sua atenção foi um manuscrito encadernado, datado do século XVII, vazado em uma língua que lhe era completamente estranha. Um pequeno texto em Português, que parecia servir de intróito, dizia ser a língua o sumério, e que o felizardo capaz de traduzi-lo alcançaria a imortalidade, assim como se tornaria imensamente rico.


Epaminondas era um homem prático, nada sonhador, bem terra a terra. Riu com desdém daquelas promessas mirabolantes. O absurdo do que lia levava-o a crispar os lábios em um sorriso irônico. Porém, alguma coisa, que ele não saberia explicar o que era, puxava-o para o manuscrito, como o ímã faz com o ferro. Quando desceu do sótão, já estava determinado a aprender o sumério, custasse o que custasse.
A partir deste dia, a vida de Epaminondas mudou radicalmente. O que era fascinação transformou-se em mania, obsessão, delírio. Tornou-se estudioso. Consagrava todas as horas de lazer ao seu objetivo único. Esqueceu-se de viver, absorveu-se e foi absorvido pelos caracteres mágicos que o enfeitiçavam.


Foram anos a fio de dedicação, em casa e na livraria. Era com impaciência que atendia os fregueses cada vez mais raros. Comprou livros, pesquisou na internet, fez contatos com sábios do outro lado do mundo. Assinou revistas especializadas. À medida em que prosseguia naquela viagem sem volta, os indícios de que o manuscrito dizia a verdade se avolumavam. Citações milenares, pistas criptográficas, as peças do imenso quebra-cabeças iam se encaixando. Seus olhos adestrados passaram a ver, em coisas aparentemente desconexas, relações profundas e sutis. No final de nove anos de estudos, sentiu que estava a um passo de dar o grande salto, de penetrar enfim a grande porta que guardava o Mistério.


Foi por esse tempo que o Seu Eleutério morreu, exatamente ao meio-dia, sentado na espreguiçadeira, o jornal dobrado nos joelhos. Como o velho fosse viúvo, e não tivesse filhos ou parentes conhecidos, Epaminondas, herdeiro presuntivo, organizou o velório. A casa do velho ficava num bairro afastado, onde grandes árvores ladeavam as ruas largas, enchendo de sombras e silvos os espaços da noite. Pôs-se a velar, sozinho, o morto. Quase madrugada, a fome o levou a abandonar a câmara mortuária, onde as velas tristes eram a sua única companhia.
Encaminhou-se a uma churrascaria, onde fez um lanche breve, biscoitos e guaraná. Pediu ainda um sanduíche, para fazer o desjejum, quando o dia nascesse.
Ao voltar para casa, o susto foi enorme. Rodeando o caixão, quatro de cada lado, oito anciãos, vestidos de preto, murmuravam palavras estranhas em uma língua extinta. E mais ainda aumentou seu espanto quando, trêmulo e suando frio, viu o antigo patrão erguer-se e, lenta e solenemente, pronunciar, com uma voz alta e cheia de vitalidade:
— Caríssimo Epaminondas, é nossa obrigação agradecermos; o Segredo do Manuscrito é nosso, meu e dos meus oito companheiros, há muitos milênios. Realmente, ele nos dá a imortalidade e nos cumula de incalculáveis riquezas. No entanto, tudo tem um preço. E o preço que o manuscrito exige é o sangue de uma pessoa que por nove anos completos se dedique à tarefa de decifrá-lo, vencendo todos os obstáculos e tendo chegado às raias de desvendá-lo. De cem em cem anos repetimos este ritual, e tantas vezes já o fizemos que perdi a conta.


Então Epaminondas Pitágoras da Cunha sentiu que garras aduncas rasgavam-lhe as vestes e a pele, e enquanto a escuridão se apossava dos seus olhos, uma lâmina fria penetrou no seu ventre, atingindo-lhe o coração, rasgando-lhe as vísceras, perfurando-lhe o pulmão, ao som de litanias e imprecações sussurradas naquela língua arcaica e quase que completamente esquecida.

(Conto de Dimas Carvalho)


Aqui, do meu quarto






Moramos todos nós nesta casa, cada um no seu quarto, a família toda. Não sei precisamente quantos somos, porque nunca nos vemos; na verdade, nenhum de nós sai de seus aposentos. A comida é entregue no quarto no momento em que o lixo diário é recolhido. Também não se vê quem entrega a comida e recolhe o lixo. Mas, embora passando os dias trancado aqui, viajo pelo mundo todo. Ultimamente estive em Camberra, depois passei pelo Texas, Espanha, a Patagônia e a Cidade do Cairo.


Um dos meus passeios favoritos é à Escandinávia. Adoro as paisagens geladas, os meses sem sol. Lá, cavalgo os grandes rinocerontes rosados, passeio pelos imensos túneis do metrô secreto que liga o Pólo Norte a Londres e Nova Iorque. Quando baixam os discos-voadores, sou o primeiro a recepcioná-los. Algumas vezes viajo de submarino. Desço a profundidades abissais, sete, oito mil metros, e lá converso longamente com polvos gigantescos, peixes cegos, corais borbulhantes, vulcões e harpias. Os seres das profundezas possuem um admirável senso de humor, e é um espetáculo edificante ver como eles praticam um canibalismo filosófico e estóico, do qual não estão ausentes o suicídio e as torturas mais sutis e pavorosas. Delicio-me com a delicadeza dos seus poetas, pintores e artesãos, sem dúvida alguma os melhores do globo, injustamente condenados, pela imensidão das águas oceânicas, a um ostracismo e a um desconhecimento por parte do público que só podemos classificar como absolutamente deploráveis.


Também costumo navegar para outras galáxias, embora na maioria dos casos, por pura preguiça, não ultrapasse as fronteiras do sistema solar. Gosto de passear principalmente nos anéis de Saturno e no nebuloso Netuno, planeta da minha predileção, pois lá não se encontram cobradores, parentes e cantores de rap, não necessariamente nesta ordem. E como é bom cavalgar os hipocampos de Júpiter, deslizando pelas paisagens veludosas que se estendem por milhares de quilômetros. Isso sem falar nos mergulhos entre as nuvens de Vênus, que rendem horas de êxtase contínuo, esqui privilegiado de prazeres conspícuos.


Voltando a minha casa, descanso por semanas ou meses seguidos. Hiberno. Escrevo longas cartas sem destinatários, ao mesmo tempo em que recebo correspondência de pessoas que vivem no futuro e que se comunicam comigo usando não sei que espécie de artifícios. Promovo grandes banquetes, e alguns dos meus convivas mais freqüentes são Napoleão Bonaparte e Leonardo da Vinci. Aristóteles aparece de vez em quando, apesar de estar ultimamente muito ocupado, escrevendo um tratado sobre as moscas azuis da Mandchúria. Mas tenho o maior cuidado de não convidar para a mesma festa Joana D’Arc e Alexandre II, pois eles simplesmente se detestam, e já tive muito trabalho em uma ocasião em que o serviço de cerimonial falhou, havendo um desagradabilíssimo encontro dos dois. Afora isso, os banquetes são um verdadeiro sucesso, e até inimigos figadais, Churchill e Hitler, por exemplo, se comportam exemplarmente, mesmo quando por acaso sentam lado a lado. Só não consegui ainda entender é como cabem neste pequeno cubículo em que vegeto 200, 300, 500 pessoas, sem contar os músicos e os garçons, que, como todos sabem, são duas espécies animais bastante agitadas, e que por este motivo ocupam um espaço desproporcional às suas funções e utilidades.


Outro dia, resolvi testar as minhas capacidades. Comecei por comer: ingeri 200 litros de gasolina, oito tortas, três queijos médios, seis pizzas-família, dez quilos de cavala, doze quilos de capim-mimoso. Depois corri setecentas léguas sem parar, tocando um trumpete que ganhei no último Natal, presente de um urso panda amigo meu que mora na Criméia. Não contente, nadei durante 50 dias, sem comer nem beber, fazendo a circunavegação da África quatro vezes, e ainda falam que Vasco da Gama é o tal. Para encerrar este meu período de férias atlético-olímpicas, encerrei-me no túmulo de Nabucodonosor, onde vivi por oitocentos dias alimentando-me com hidromel, formigas e gafanhotos que me eram trazidos por carruagens de fogo puxadas por dragões alados. Só saí de lá quando a grande águia rodou sobre mim por setenta vezes, e todos os leões da Báctria começaram a urrar em uníssono. Feito isso, arranquei as montanhas do Cáucaso para fazer com elas a casa de morada do meu coelho de estimação, que reside na hospitaleira cidade de Jamestown, para onde enviei, via telex, todos os utensílios necessários à sua boa acomodação.
Agora estou ouvindo barulho nos outros quartos. De cada lado vem um som diferente: são fanfarras, músicas sacras, tinir de metais, descargas de banheiros, trombetas, cristais que se partem, buzinas, silvos de trens, roncos de avião, sinfonias fragmentadas, grunhir de porcos, patadas, coices, miados, uivos, choques de caminhões em alta velocidade, ambulâncias, explosões nucleares, trinados de pássaros, alto-falantes, zumbido de insetos, troar de canhões, gritos, ruídos de portas e janelas que se fecham com violência, pneus que freiam, apitos, fragor de ondas, chuva caindo, relâmpagos e trovões. Em cada quarto desta maldita casa acontecem mil coisas diferentes a cada momento, e em cada um deles, eu sei, há um maluco escrevendo suas fantasias mais delirantes, e, o que é bem pior, o relato de coisas verdadeiras que vemos, ouvimos e sabemos e que, se as ousássemos contar, seriam tachadas de fantasias e mentiras desvairadas. Mas será que eles todos são realmente e totalmente malucos?

(Dimas Carvalho)