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terça-feira, 14 de abril de 2009

Vicente Freitas comenta Fábulas Perversas




O poeta e ficcionista Dimas Carvalho, nascido, crescido e vivido no Acaraú, lança mais um livro – Fábulas diversas, ou melhor, perversas. Um escritor que, na verdade, sabe apreender as coisas invisíveis e materializá-las em palavras, dentro das leis criativas e fora dos esquemas da lógica – e que pratica largamente o que podemos chamar de humor adstringente, restrito, antes rangente que negro, e que se situa a meio caminho entre o humano e o desumano.
Vamos entrar no túnel do tempo e visitar – Strawberry Hill, em 1750: Uma construção gótica, bizarra e anacrônica, surge ao nosso olhar surpreso e espantado. Quem é, pois, o ocupante deste estranho edifício? Um louco? Não – um homem de letras, rico e ocioso. Trata-se de Sir Horace Walpole, Conde de Oxford, que transformou sua vila num castelo feudal. Deve-se precisamente a um desses seus típicos sonhos o romance O Castelo de Otranto (1767), que povoará de pesadelos, de fantasmas e de pobres heroínas, a literatura popular e os filmes de horror da nossa era. Mas devem-se-lhe também páginas notabilíssimas, autênticas obras-primas em que o absurdo e o irracional, aprisionam e esmagam de terrores sombrios a nossa precária condição humana.
Mas o romance do “castelo” tem vida breve. Nasce com Walpole e morre com Clara Reeve. Só que o grão semeado pelo estravagante Walpole não tem tempo de estiolar. Ann Redcliffe, Gregory Lewis e o reverendo Maturin transplantam-no para um terreno muito mais fértil, onde produzirá flores duradouras – as do romance terrífico, ou, melhor,
do “romance negro”.
No entanto, o monstro mais famoso da literatura, ainda hoje muito popular, é, indubitavelmente, o Frankenstein, de Mary Godwin, segunda mulher do poeta Shelley, amiga de Byron e Milton. Frankenstein foi publicado em 1818, obtendo imediatamente rumoroso sucesso junto do público e da crítica.
Marquês de Sade (1740-1814), autor de Justina e dos Cento e vinte dias de Sodoma e Gomorra, usa os instrumentos do romance negro, vivificados pelo racionalismo anti-religioso do século XVIII, levado às suas extremas conseqüências, e entra definitivamente na cultura moderna, concorrendo para formar o clima espiritual de que nascerão o surrealismo e a literatura de hoje.
O primeiro homem de letras americano a fazer da literatura uma profissão é justamente Brockden Brown, importador do medievalesco através das obras de Ann Redcliffe, sendo ele, sem dúvida, o verdadeiro precursor direto de Edgar Poe, autor das “Histórias extraordinárias”, reconhecido hoje mundialmente, depois de ter se tornado pó do pó.
Vivendo em países distantes, provenientes de culturas diversas, o irlandês James Joice (1882-1941) e o tcheco Franz Kafka (1883-1924), apresentam, todavia, vários pontos em comum. Ambos despontam como ficcionistas durante a Primeira Guerra Mundial: Joice em 1914, com “Dublinenses”; Kafka em 1916, com a “Sentença”. Ambos abordam o tema do absurdo da condição humana, que desenvolveram ao longo de toda a sua carreira: Kafka criando parábolas sobre acontecimentos fantásticos no cotidiano de pessoas comuns; Joice retratando o mundo interior numa linguagem elaborada e rica, na qual se mesclam neologismos, expressões eruditas e palavrões. Ambos, enfim, revolucionaram o estilo narrativo, exercendo profunda influência sobre os ficcionistas que os sucederam.
A história da literatura tem mostrado que todo período literário tem suas características próprias, expressas por um conjunto de escritores que refletem em suas obras a concepção de literatura e a visão de mundo da época e da sociedade em que vivem.
Os “pós-modernos” estenderam a busca modernista às potencialidades da consciência humana e à distinção entre o indivíduo e o mundo objetivo por meio de uma subversão deliberada das convenções da ficção. Isso fez surgir uma vasta gama de técnicas, abrindo a ficção para a fantasia, a alegoria surrealista e o realismo fantástico.
Aqui no Brasil temos também ficcionistas que se aproximam desse quase “humor negro” – entre eles podemos destacar Moacyr Scliar e Dimas Carvalho – contistas que procuram apresentar os seus personagens em momentos de crise, como seres cuja essência implica a própria existência problemática. Os personagens revelam-se singulares pelo seu comportamento, num cotidiano de situações em que se misturam o real e o fantástico.
Desde sua estréia na ficção com “Itinerário do reino da barra”(1993), Dimas Carvalho estabiliza algumas características em seus contos. Uma delas é a preferência por personagens carentes de identificação – a maioria com nomes – mas, às vezes, sem traços que os individualize, assim eles representam tipos genéricos, modelos de ação e comportamento, em vez de personalidades, cuja intimidade e psicologia são vasculhadas pela pena do autor.
Entretanto, em toda sua obra, ele não divide as pessoas em boas e más. Há subdivisões no sistema, é claro, mas os reinos em que se dicotomiza não são esses. O fantástico é a grande qualidade ao longo de todos os seus contos, os personagens fictícios ou reais, as coisas, as paisagens, as idéias. É que ele tem sede jamais saciada de ternura humana, de comunicação. Daí essa fixação para certo inconsciente, na poesia das coisas e das pessoas, contraste à aspereza e a violência do mundo que o machuca, resposta sempre buscada à própria solidão.
Vamos conhecer um pouco seus personagens: Em Os gêmeos, p. 10 – Ageu e Agesilau; Anaxágoras e Anaxímenes; Araquém e Araribóia; Zózimo e Zuínglio; Zaratustra e Zoroastro, para terminar com Tomás ou Tomiah. Em O manuscrito, p. 17 – Epaminondas Pitágoras da Cunha e Eleutério. Em Odisséia de Bernardo Tracajá, p. 25 – Bernardo e Teógenes, o sobrinho. Em Branca de Neve e os sete gigantes, p. 64 – Alquitofel, Adamastor, Judicael e outros. Em Tango em Itapemba, p. 77 – D. Afonso, Lindaura, João Guilherme. Em Zé Tatu, p. 79 – velho Adonias, Severino, dona Zefinha. Em Quarentena, p. 85 – José da Silva (Zé-povinho), encontrado em todas as veredas, becos e ruas, em todas as páginas de todos os livros.
Outra característica do autor é sua preferência pelo insólito, quando narra, vez por outra, acontecimentos impossíveis – fatos, no mínimo, inusitados, mistura de normalidade e fantasia; do real e sobrenatural, maneira típica do realismo fantástico, num estilo de narrativa característico do pós-moderno.
Nascido a 28 de janeiro de 1964; aos doze anos começou a escrever poemas e contos, tendo publicado alguns no jornalzinho “Jovens que se comunicam”, mimeografado pelo Grêmio Cultural Irmã Consolação, de Acaraú, publicando também no “Semeador”, órgão da Pastoral da Juventude de Sobral, editado nas oficinas do Correio da semana. Em 1978 escreveu o conto “As minas de ferro”, um trabalho de classe, dirigido pelo professor de português Mons. José Edson Magalhães.
Licenciado em letras e com mestrado em literatura brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, é professor de teoria da literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú, UVA, em Sobral. Publicou os seguintes livros: “Poemas”, 1988; “Frauta ruda agreste avena”, 1993; “Itinerário do Reino da Barra”, 1993; “Nicodemos Araújo, poeta e historiador” (em parceria) 1995; “Mínimo plural”, 1998; “Histórias de zoologia humana”, 2000; “Fábulas perversas”, 2003, “Marquipélago”, 2004.
Dimas Carvalho, nascido, crescido e vivido em berço de tantos intelectuais ilustres, traz mais uma vez a marca de sua vocação autêntica de ficcionista, no livro que ora apresentamos ao público, e que ele intitulou Fábulas perversas. São histórias freqüentemente fantásticas que deixam sempre o saldo crítico – em nível satírico – da dolorida condição humana.

OS CONTOS DE DIMAS: A CRÍTICA DE NILTO MACIEL



Dimas Carvalho e os narradores delirantes


Nilto Maciel


Alguns críticos opõem ao que chamam de “conto tradicional” o denominado “conto moderno”. Para Assis Brasil (A Nova Literatura – III O Conto, Ed. Americana, Brasília, INL, 1973), “Só com a quebra do episódio, com a abolição – parcial ou total – do enredo, do descritivo narrativo linear, o conto foi se libertando das outras narrativas de ficção e adquirindo sua própria forma.” Na verdade, o termo literário “conto” é genérico, serve para designar todo texto literário curto que não seja poema ou crônica. Para certos escritores, até alguns tipos de poema e crônicas são postos na categoria geral denominada conto. Há, porém, textos literários curtos que somente são classificados como conto em razão dessa “noção didática” de se chamar conto todo texto de ficção curto que não seja poema ou crônica. No Ceará este tipo de conto vem sendo praticado há alguns anos, como no livro Pluralia Tantun (1972), de Gilmar de Carvalho. Mais tarde surgiu Jorge Pieiro, com seus “contemas”. Verifica-se também nos livros Itinerário do Reino da Barra (1993), Histórias de Zoologia Humana (2000) e Fábulas Perversas (2003), de Dimas Carvalho.
Em “Os Ilustres Assassinos” (quase prefácio do próprio autor) lê-se espécie de lema literário, que se repete ou se resume em “Conto curtíssimo”. O personagem é o menos importante no conto. Mais vale a história, embora nem sempre haja enredo e muito menos ação. Ou literatura não passa de pura erudição de desocupados? Leiam-se “Esboço de um relatório”, “Oráculo para principiantes”, “O prisioneiro”. Onde está o personagem? O personagem às vezes nem é personagem, isto é, o narrador é somente narrador, não chegando a personagem (“Messias, ou os filhos do limbo”). Como se fosse apenas cronista, observador, sem nenhuma vinculação com a trama, com a história. Essa “desimportância” do personagem (ser humano) pode ser vista em “Desaniversário”, onde animais e seres inanimados tomam o lugar do homem. Fábula? Sim, mas não somente por isto. Em “Odisséia de Bernardo Tracajá” não há personagens.
Muitos dos personagens de Dimas não são de carne e osso. Seriam simples imagens, representações, impressões de personagens, como em “O Toureiro”. Em outros contos, os personagens se transformam continuamente ou sofrem constantes mutações, metamorfoses. Há também personagem indefinido (“Âncora”): “Nunca se soube ao certo quem era: um conde russo, um pintor renascentista, um pirata levantino, um mágico, um cantor, um arquiteto, um vigarista qualquer.” Personagem “vindo do nada”. Narrador indefinido ou não identificado percebe-se também em “Nossa fronteira ao sul”.
Às vezes o personagem quer se conhecer, se descobrir, e se inventa. Dá-se a auto-invenção, como se o narrador-autor não tivesse domínio do personagem (“Glosa a uma história antiga”). Há ainda personagens “ocultos”, como em “O irmão do grande homem”, embora haja uma história, ação, tempo e lugar definidos. O mesmo se vê em “Chamado”. Quem chama? O personagem oculto? Outros são apenas vislumbrados, como se vistos de muito longe, quase envoltos em bruma, ou há muito tempo, como em “O Vidente”. Algumas formas verbais na narração dão idéia dessa distância do personagem aos olhos do leitor: “profetizava”, “cresceu sua fama”, “se propagou” sua alcunha, enquanto uma águia “soltava gritos”, até que “no dia seguinte” apareceu morto.
Os personagens são sempre emblemáticos ou simbólicos. Em “A Árvore” o homem só é uma árvore; o jardineiro é a rotina, vista como o mau; a mulher bela e atraente é o novo, o progresso, o bem. O protagonista de “O Profeta” é, ao mesmo tempo, humano e divino, pois os comerciantes o insultam, as crianças lhe jogam merda de cavalo, se deita na piçarra, ou seja, é visível, tem corpo, e, no entanto, “quando caminha pela superfície, torna-se invisível”. Em “O Gato” o narrador fala de todos os gatos, poeticamente, até contar uma historinha ou uma fabulazinha, com direito a “moral da história”: “tende cuidado com os gatos cor-de-rosa. De todos os tipos, é o mais perigoso. Não porque nos minta, ou nos iluda, ou nos roube o queijo. Mas pelo contrário”.
O personagem-escritor Eulálio Modesto Nicanor é, ao mesmo tempo, real e irreal. Real porque tem biografia e deixou vasta obra literária, impressa em jornais, almanaques e revistas. Irreal porque esta mesma obra desapareceu e o poeta (e sua obra) não passa de obra coletiva e anônima. Personagem e obra se confundem.
Há na obra de Dimas uma visível preocupação do narrador com a criação literária. Veja-se “O livro inexistente”, onde o personagem é um escritor que não escreve, diferente de Eulálio, que escreveu, mas a obra se perdeu. No fundo, a mesma coisa. E ainda “Aqui, do meu quarto”, no qual o narrador é um escritor (maluco), um criador de fantasias, enclausurado num quarto, preso entre quatro paredes, solitário, imune aos ruídos do mundo, fechado num casulo. Leia-se “Finnegans wake”, homenagem a Domingos Olímpio ou todo escritor relegado ao esquecimento.
As personagens de Dimas Carvalho agem em espaços ilimitados ou etéreos, quando elas mesmas nem aparecem. A casa, o curral, o bosque, as igrejas, as torres das igrejas, as torres góticas, as ruas estreitas, todos os espaços são meros nomes. Para o contista não tem nenhuma importância este ou aquele lugar. Tudo é apenas adereço. Assim, que território habitam os personagens de “Os gêmeos”? Seria o espaço bíblico, homérico, indígena, indiano? Como se todos os dramas não passassem de sonhos, alucinações, visões, delírios. Os narradores e os protagonistas são seres delirantes, quase sempre, como o de “Um Sonho”, a vagar por uma cidade coberta de névoa, entre casarões antigos, com figuras de górgonas e dragões esculpidas nas portas. Em “Os quatro dragões azuis” o espaço é apenas “aquela cidade”, cheia de “grandes estátuas”, “sentinelas taciturnas” e, logicamente, os dragões azuis.
Embora delirantes, os narradores e protagonistas de Dimas são sempre pequenos, frágeis diante da vida e da trama da narrativa. “Um militar da reserva” é um exemplo dessa fragilidade. Parece até que mais importante do que o personagem, mesmo o protagonista, é o objeto ou o mistério a envolver um e outro. Em “O manual de prestidigitação” o narrador chegou à casa de poderoso feiticeiro, o qual presenteou o visitante com um livro. O feiticeiro desaparece, porque não tem mais importância na trama. O livro assume lugar de destaque. E se mantém “fechado” (misterioso), até que um dia alguém chegue “para recebê-lo”. Em “O Herdeiro” o próprio Rei “não passa de uma peça, talvez a menos importante”.
Dimas Carvalho não raras vezes abole o uso do prisma dramático univalente ou simplesmente faz do conflito apenas um esboço, como se ação não houvesse. Em “Este lugar” a ação é tão-somente expectativa – do dia fatal – pois “nada acontece”, embora o dia da resposta se aproxime e cresçam o medo e a esperança do narrador. Essa ausência de ação – esse nada acontece – é claríssima em “Nada, sempre”. Esse não-acontecer está também em “C’est la vie”. A ausência de enredo, às vezes, leva a se pensar se o enredo é apenas um enredado de ações, como em “Os doze trabalhos de Gabriel ” e “A Coisa”.
Os mais variados recursos expressivos se mostram na linguagem de Dimas Carvalho, às vezes num mesmo conto curtíssimo, como em “A Vingança”, onde se podem ver descrição (“A casa fica num alto, batida pelos ventos.”), narração (“Meia noite quase, a voz:”), fala (“– Água, por favor.”) e desenlace (“A porta que se abre, o tiro, o galope dos cavalos.”), com a presença clara de elipses de narração, preenchidas e resumidas no título. O uso do epílogo-resumo é uma constante em Dimas, como “Último ato”. Há até um conto de um só parágrafo, sem pontos (“Recordações da cidade do sol”).
Eclético, o escritor cearense utiliza as mais diversas formas da ficção curta: da narrativa inspirada na tradição do conto linear, com enredo claro (“Grau Zero”, “Tango em Itapemba”), à fábula curta, breve, sem trama, à parábola de feição bíblica. No mais das vezes, porém, o primeiro tipo dá lugar ao segundo, este ao terceiro, na mesma “narrativa”. É o que se pode verificar em “As tartarugas”. A princípio se trata de uma narrativa linear. Logo, porém, aparece o misterioso, a quebrar a “racionalidade” do enredo, isto é, a desmontar o urdidura verificada no início da “história”.
No mais das vezes Dimas foge do realismo e se envolve nas brumas do supra-realismo, do surrealismo, (“Encantos”) ou do realismo mágico. O realismo se apresenta aqui e ali, como em “Um dia ainda serei feliz”, com uma anti-heroína urbana. Ou em “Zé tatu”, história do sertão, “Sertão” e “Meu amigo Valenciano”, com heróis sertanejos e seus misticismos. O ambiente rural ou não-urbano se mostra ainda em “História de avô”, embora o realismo se vá aos poucos desfazendo, para dar lugar ao mistério. Mas o que é real para Dimas? Em “O Peixe” o animal era reflexo de uma imagem (quadro) irreal. A ilusão da imagem reaparece em muitos outros contos, como em “Diógenes”. Ou tudo é real ou tudo é ilusório? (“A descoberta”). Em “Visões” a mesma dúvida: Quem é? O que é? E em “A dúvida”: Quem sou?
Na maioria dos contos de Dimas o ponto de vista é do narrador onisciente, algumas vezes do narrador-protagonista. Em “O Sonho” o narrador está só no mundo. Em “A estátua de bronze” o narrador se vê diante de uma estátua, que seria o segundo personagem. E é, porque, no epílogo, “começa a abrir cautelosamente os olhos impassíveis”.
O narrador às vezes é plural (“Em memória de K”). Há também contos em que o foco narrativo é múltiplo, como em “Três rezas para Fortunato”: as criaturas (personagens de uma autora) e a criadora (suposta autora). Ocorre ainda o tratamento na segunda pessoa, onde o narrador ou interlocutor da segunda pessoa não se manifesta com clareza, como se fosse apenas uma voz (a consciência?). É o caso de “O Sobrevivente”. Em “Mostrando as armas” o narrador (o falante, o escritor) se dirige a outro personagem, a quem trata por “você”, e que é simplesmente “um homem”. Essa segunda pessoa pode ser protagonista ou o símbolo do homem universal (“Instruções para o fim do mundo”). Há um conto (“O dia seguinte”) em que o narrador é o morto (o que não é novidade na literatura), invertendo-se o ponto de vista narrativo. Espécie de monólogo interior do defunto, enquanto os personagens vivos se deixavam observar por ele.
Edgar Allan Poe está muito manifesto na obra de Dimas Carvalho, sem imitação. Porque também presentes estão os narradores bíblicos (Adão e Eva, o pecado e o castigo, como em “O Manuscrito”), Homero, Ovídio (metamorfoses, “Ovídio”), Dante, Kafka (“Francisco”, “O Castelo”, “Tratado da neblina”), Borges, contos de fadas (“Branca de Neve e os sete gigantes”) e toda a melhor tradição na arte de narrar.
Em suma, a linguagem de Dimas Carvalho é trabalhada, cinzelada, apurada, como se a frase surgisse depois de horas a fio de cuidados. Não se percebe, no entanto, a frase ornamentada, cheia de floreios, atavios inúteis.